Matemática e Emoções

MATEMÁTICA E EMOÇÕES: UM APRENDIZADO POSITIVO E DIVERTIDO

Bem-vindos ao nosso artigo sobre matemática e emoções. Este artigo propõe uma reflexão sobre a relação entre matemática e emoções, evidenciando como essa interação pode contribuir para uma experiência de aprendizagem mais positiva e significativa. Embora a matemática seja frequentemente associada a sentimentos de ansiedade e insegurança, é possível ressignificar essa percepção por meio de práticas pedagógicas que valorizem o aspecto emocional do aprender.

Ao longo do texto, discutiremos a importância de reconhecer e desenvolver competências socioemocionais no ensino da matemática, destacando estratégias que favorecem a autoconfiança, o bem-estar e a segurança dos estudantes diante de desafios matemáticos. Abordaremos, ainda, como o uso de feedback positivo e de metodologias sensíveis às emoções pode potencializar o processo de ensino e aprendizagem.

Por fim, evidenciaremos que matemática e emoções estão profundamente interligadas no cotidiano escolar. Compreender essa relação permite tornar o ensino mais acessível, humanizado e funcional, favorecendo não apenas o desempenho acadêmico, mas também o desenvolvimento integral do estudante. Ao integrar razão e emoção, a aprendizagem matemática torna-se mais significativa e prazerosa.

Emoção e Cognição: O Equilíbrio Necessário para Aprender

Compreender o processo de aprendizagem tem sido um desafio para pesquisadores das mais diversas áreas, inclusive na Educação Matemática. Existe uma diversidade de teorias que busca descrever os mecanismos de aquisição de conhecimentos e habilidades necessários à construção do saber. As mais contemporâneas investigam a aprendizagem considerando as dimensões emocionais, sociais, históricas, culturais e que incluem novos modos de pensar (Souto, 2015).

Autores como Wallon (2007) reforçam que emoção, movimento e cognição são dimensões indissociáveis do desenvolvimento humano. Para o autor, a emoção é o primeiro meio de comunicação da criança com o mundo, influenciando diretamente sua forma de aprender. Dessa maneira, integrar a educação emocional ao ensino da matemática favorece não apenas a aprendizagem de conteúdos conceituais, mas também o desenvolvimento integral do sujeito.

Na teoria walloniana, emoção e cognição coexistem no indivíduo em todos os momentos, mas a dimensão afetiva ocupa lugar central, tanto na perspectiva da construção da pessoa quanto do conhecimento (La Taille, 1992; Ferreira; Acioly-Régnier, 2010; Leite, 2012). Todavia, “o domínio afetivo permanece marginal na abordagem pedagógica da maioria dos professores, de modo que, historicamente, os elementos cognitivos são situados em prioridade” (Ribeiro, 2010, p. 409).

De acordo com Damásio, a emoção dirige, conduz e guia a cognição, não se pode compreender a aprendizagem sem reconhecer o papel dela em tão importante função adaptativa humana. A interdependência da emoção e da cognição no cérebro é demonstrada pelas novas tecnologias de imagiologia do nosso órgão de aprendizagem e de interação social. Ao longo da evolução humana e ao longo da educação da criança, ambas co-evoluíram e co-evoluem, elas são neurofuncionalmente inseparáveis.

Segundo Fonseca (2016), a emoção guia e acompanha a aprendizagem como processo neurológico básico, estabiliza a gestão e executa a pilotagem dos processos cognitivos, conativos e executivos que entram em jogo na aprendizagem e no comportamento de longo termo.

Assim, ao longo da evolução, a espécie humana desenvolveu no seu cérebro um pensamento emocional (“emotional thought“), ou seja, um sistema operacional emocional e social (SOEC), que gerou posteriormente um pensamento racional, daí a importância do sistema límbico que, ao emergir do tronco cerebral, que trata das funções automáticas de bem estar e de sobrevivência, prepara e aciona o neocórtex para o desempenho de funções cognitivas superiores necessárias às aprendizagens mais complexas e simbólicas.

As conexões entre o sistema límbico, especialmente a amígdala, e o neocórtex constituem a base da interação entre emoção e pensamento. Esses circuitos neurológicos explicam por que os processos emocionais exercem influência direta sobre o raciocínio, a tomada de decisões e a clareza do pensamento. Quando há equilíbrio entre essas estruturas, ocorre cooperação entre razão e emoção; quando há desequilíbrio, surgem interferências cognitivas.

A memória de trabalho — responsável por manter informações ativas durante a resolução de tarefas e problemas — é regulada principalmente pelo córtex pré-frontal. No entanto, emoções intensas como medo, ansiedade ou raiva podem comprometer esse funcionamento, gerando interferências neurais que dificultam a concentração e o raciocínio lógico. Essa sobrecarga emocional prejudica a capacidade de manter informações essenciais, afetando diretamente o desempenho cognitivo.

Em contextos educacionais, especialmente na infância, estados emocionais recorrentes de tensão ou insegurança podem limitar o desenvolvimento intelectual e a aprendizagem. Assim, compreender a relação entre emoção e cognição é fundamental para promover ambientes pedagógicos que favoreçam o equilíbrio emocional, condição indispensável para aprender com qualidade.

A relação entre emoção e cognição assume papel central no processo de aprendizagem matemática, especialmente quando se considera o fenômeno da ansiedade matemática. A matemática exige o uso intenso da memória de trabalho, da atenção e do raciocínio lógico — funções cognitivas mediadas pelo córtex pré-frontal. No entanto, conforme apontam estudos da neurociência, estados emocionais negativos como medo, insegurança e tensão ativam a amígdala, desencadeando respostas de estresse que interferem diretamente nessas funções executivas. Dessa forma, alunos que vivenciam experiências emocionais adversas relacionadas à matemática podem apresentar bloqueios cognitivos, mesmo possuindo conhecimentos conceituais adequados, o que compromete o desempenho e reforça sentimentos de incapacidade.

Nesse contexto, a ansiedade matemática configura-se como um obstáculo significativo ao aprendizado, pois cria um ciclo em que emoções negativas reduzem a eficiência do pensamento lógico e, consequentemente, aumentam as dificuldades na resolução de problemas. Situações avaliativas, exposição ao erro e metodologias centradas apenas no acerto tendem a intensificar esse processo. Assim, a educação matemática precisa considerar estratégias pedagógicas que integrem aspectos cognitivos e emocionais, promovendo ambientes seguros, uso de metodologias ativas, jogos, feedback positivo e valorização do processo de aprendizagem.

Ao favorecer o equilíbrio entre emoção e pensamento, o ensino da matemática torna-se mais acessível, reduz os níveis de ansiedade e amplia as possibilidades de construção de aprendizagens significativas.

A vida emocional é um campo com o qual se pode lidar, certamente como matemática ou leitura, com maior ou menor habilidade, e exige seu conjunto especial de aptidões. Daniel Goleman, 1995.                

A citação de Daniel Goleman destaca que as emoções podem ser aprendidas, desenvolvidas e aprimoradas, assim como habilidades acadêmicas como a leitura e a matemática. Isso significa que a competência emocional não é inata, mas pode ser ensinada e fortalecida por meio de experiências educativas, exigindo habilidades específicas como autocontrole, empatia, autoconhecimento e regulação emocional.

A Educação Emocional e o Ensino de Matemática

A Educação Emocional e o Ensino de Matemática tem sido amplamente discutida em artigos acadêmicos por seu impacto direto nos processos de aprendizagem. Estudos em psicologia educacional e neurociência indicam que emoções como ansiedade, medo e insegurança interferem no funcionamento cognitivo, especialmente em áreas como atenção, memória de trabalho e resolução de problemas (DAMÁSIO, 1996; GOLEMAN, 1995).

No contexto da Matemática, esses fatores emocionais são ainda mais relevantes, uma vez que a disciplina historicamente carrega estigmas de dificuldade e fracasso escolar. Pesquisas apontam que altos níveis de ansiedade matemática podem comprometer significativamente o desempenho dos estudantes, independentemente de suas capacidades cognitivas reais.

A relação entre emoção e cognição tem sido amplamente investigada nas últimas décadas, evidenciando que os processos emocionais desempenham papel central na aprendizagem. Estudos da neurociência e da psicologia educacional demonstram que aprender não é um ato exclusivamente racional, mas um fenômeno complexo que envolve aspectos afetivos, sociais e culturais (DAMÁSIO, 1996).

Segundo Damásio (1996), as emoções são fundamentais para a tomada de decisões e para o funcionamento cognitivo, uma vez que influenciam a atenção, a memória e a capacidade de resolver problemas. No contexto educacional, especialmente no ensino da matemática, emoções como ansiedade, medo e frustração podem comprometer significativamente o desempenho dos estudantes, enquanto emoções positivas favorecem o engajamento e a persistência diante de desafios.

Goleman (1995), amplia essa discussão ao introduzir o conceito de inteligência emocional, compreendida como a capacidade de reconhecer, compreender e regular as próprias emoções e as dos outros. Para o autor, habilidades emocionais como autocontrole, motivação, empatia e resiliência são determinantes para o sucesso acadêmico. No ensino de matemática, essas competências tornam-se essenciais, uma vez que a disciplina frequentemente desperta sentimentos de insegurança e bloqueio emocional nos estudantes.

Complementando essa perspectiva, Vygotsky (2001) destaca que o desenvolvimento cognitivo ocorre por meio das interações sociais e culturais, sendo a aprendizagem mediada por instrumentos simbólicos e pelas relações afetivas estabelecidas no ambiente escolar. Assim, a dimensão emocional não pode ser dissociada do processo de construção do conhecimento matemático, pois o aluno aprende em interação com o outro, em um contexto permeado por significados, afetos e experiências.

Pesquisas no campo da Educação Matemática, como a Modelagem Matemática (MM) indicam que práticas pedagógicas que consideram o aspecto emocional — como o uso de jogos, feedback positivo, aprendizagem colaborativa e valorização do erro como parte do processo — contribuem para a redução da ansiedade matemática e para a construção de uma relação mais saudável com a disciplina (BORBA; ARAÚJO, 2010; FIORENTINI, 2006).

De acordo com os autores acima citados, a Modelagem Matemática (MM) constitui um campo de estudo de grande relevância, amplamente investigado no Brasil e no exterior, com expressiva produção acadêmica. Fundamentada em diferentes áreas do conhecimento — como Biologia, Física, Química, Engenharia, Economia e Matemática —, essa abordagem utiliza modelos matemáticos para representar, interpretar e resolver problemas da realidade (Araújo, 2009).

No contexto educacional, a Modelagem Matemática tem sido reconhecida como uma metodologia que favorece um ensino mais dinâmico, investigativo e significativo, estimulando o protagonismo do estudante na construção do conhecimento e o desenvolvimento do pensamento crítico (Barbosa, 2004; Burak, 2005; Bassanezi, 2006).

Essa abordagem tem sido amplamente discutida como uma metodologia de ensino que favorece a contextualização dos conteúdos, o desenvolvimento do pensamento crítico e a participação ativa dos estudantes. Ao propor situações-problema vinculadas ao cotidiano, a Modelagem Matemática possibilita um ensino mais dinâmico, investigativo e significativo, contribuindo para a formação de aprendentes autônomos, reflexivos e capazes de atribuir sentido aos conhecimentos matemáticos.

 Fonseca (2016), pontua que os ensinamentos das neurociências, ao aproximar  as  emoções  do  processo  ensino-aprendizagem,  dão-nos  inúmeras  ajudas para  pôr  em  prática  estratégias  e  experiências  de  interação  emocionalmente significativas que melhoram, não só o ensino, como a aprendizagem nas escolas. 

A citação destaca que as neurociências trouxeram importantes contribuições para a educação ao demonstrarem que emoção e aprendizagem são processos inseparáveis. Segundo o autor, compreender como o cérebro aprende permite ao professor criar estratégias pedagógicas mais eficazes, baseadas em experiências que envolvam emoções positivas. Isso ocorre porque as emoções influenciam diretamente funções cognitivas essenciais para aprender, como atenção, memória, motivação, tomada de decisão e raciocínio.

Quando o ensino promove interações emocionalmente significativas — como relações afetivas seguras, feedback encorajador, atividades desafiadoras e contextualizadas — o cérebro aprende melhor. Nessas condições, há maior ativação do córtex pré-frontal, favorecendo a compreensão, o pensamento crítico e a consolidação dos conhecimentos.

Assim, Fonseca enfatiza que os aportes das neurociências ajudam a escola a ir além da simples transmissão de conteúdos, possibilitando práticas pedagógicas que integram cognição e emoção, melhorando simultaneamente a qualidade do ensino e a efetividade da aprendizagem.

Estratégias para o Desenvolvimento Emocional na Educação Matemática

Os professores podem usar estratégias simples de educação emocional como:

  • Pedir que os alunos falem sobre suas emoções com os desafios da matemática;
  • Criar um espaço de respeito e apoio, estimulando perguntas e compartilhamento de ideias;
  • Fazer atividades práticas que fortaleçam a inteligência emocional, como resolver problemas em grupo;
  • Dar feedback positivo, destacando o progresso e esforço dos alunos;
  • Mostrar como as emoções influenciam o entendimento da matemática, usando exemplos do dia a dia dos alunos.
  • Criar um ambiente onde todos são ouvidos;
  • Fazer atividades em grupo, elas ajudam na colaboração;
  • Mostrar como a matemática é útil na vida real;
  • Desafiar os alunos, respeitando o que eles já sabem;
  • Valorizar o esforço deles com feedback positivo;
  • E ensinar como controlar as emoções, isso ajuda na ansiedade dos estudos.

Essas estratégias ajudam a criar um ambiente de aprendizado balanceado. Onde o crescimento acadêmico e emocional dos alunos é valorizado. Assim, eles aprendem matemática de forma sólida e se tornam mais resilientes na vida.

Aprendizagem Socioemocional e a Tomada de Decisões

Sob a perspectiva sociointeracionista, Vygotsky defende que a aprendizagem ocorre por meio das interações sociais e é profundamente mediada por aspectos afetivos e culturais. Nesse sentido, a educação emocional contribui para a criação de ambientes de aprendizagem mais seguros, colaborativos e motivadores, nos quais o erro é compreendido como parte do processo e não como motivo de punição. Pesquisadores ressaltam que práticas pedagógicas que valorizam o diálogo, o feedback positivo e a escuta ativa favorecem o desenvolvimento da autoconfiança, da persistência e da autorregulação emocional, habilidades essenciais para enfrentar desafios matemáticos complexos.

Além disso, pesquisas contemporâneas em educação matemática indicam que ao trabalhar competências socioemocionais — como empatia, controle emocional e motivação — o professor amplia as possibilidades de engajamento dos alunos, tornando o ensino mais humanizado e eficaz. Dessa forma, a educação emocional não deve ser vista como um complemento, mas como um componente estruturante do ensino da Matemática, contribuindo tanto para o desenvolvimento acadêmico quanto para a formação integral do estudante, conforme preconizam as atuais diretrizes educacionais e evidências científicas.

Damásio descreve a evolução dos processos de tomada de decisão no ser humano, destacando que eles não surgiram todos ao mesmo tempo, mas se desenvolveram progressivamente ao longo da evolução biológica e cultural da espécie. Segundo o autor, o primeiro e mais antigo mecanismo de decisão está ligado à regulação biológica básica, responsável pela manutenção da vida. Esse nível envolve funções automáticas do organismo, como equilíbrio interno, sobrevivência, respostas ao perigo, fome, dor e prazer. Trata-se de decisões inconscientes e instintivas, controladas por estruturas cerebrais primitivas, cuja função principal é preservar a vida.

Em um segundo momento evolutivo, surge o domínio pessoal e social, relacionado às emoções e aos sentimentos. Nesse nível, as decisões passam a considerar experiências individuais, relações interpessoais, vínculos afetivos e normas sociais. As emoções atuam como sinais que orientam o comportamento, ajudando o indivíduo a avaliar riscos, antecipar consequências e adaptar-se ao meio social.

Por fim, Damásio aponta o surgimento do nível mais recente: o das operações abstrato-simbólicas, que envolve o pensamento lógico, científico, artístico, linguístico e matemático. Nesse estágio, o ser humano desenvolve a capacidade de raciocinar de forma simbólica, elaborar conceitos, criar teorias, utilizar números, linguagem escrita e pensamento formal. É nesse nível que se situam o raciocínio matemático e científico, frequentemente considerados como expressões superiores da cognição humana.

No entanto, o ponto central da reflexão de Damásio está na afirmação de que, apesar de esses sistemas possuírem certa autonomia funcional, eles não operam de maneira isolada. Mesmo com milhares de anos de evolução e com a especialização de diferentes sistemas neurais, o autor defende que todos esses níveis — biológico, emocional, social e racional — estão profundamente interligados.

Isso significa que o pensamento lógico e matemático não funciona separado das emoções e da regulação corporal. Ao contrário, decisões racionais dependem de sinais emocionais e corporais que orientam escolhas, prioridades e julgamentos. Dessa forma, emoção e razão não são opostas, mas complementares.

Assim, Damásio rompe com a visão tradicional cartesiana que separava mente e corpo, emoção e razão. Para ele, todo processo cognitivo complexo, inclusive o raciocínio matemático e científico, apoia-se em bases emocionais e biológicas. Quando essas bases são afetadas — como ocorre em situações de estresse, medo ou ansiedade — o desempenho cognitivo também é impactado.

No contexto educacional, essa concepção reforça a ideia de que não há aprendizagem puramente racional. Aprender matemática, por exemplo, envolve não apenas operações simbólicas, mas também emoções, experiências anteriores, sentimentos de competência ou fracasso e relações sociais estabelecidas no ambiente escolar.

Portanto, a principal contribuição de Damásio é afirmar que:

O desenvolvimento humano é integrado, e que os processos biológicos, emocionais, sociais e cognitivos formam um sistema único e indissociável, no qual a aprendizagem e a tomada de decisão emergem da interação entre todos esses níveis.

Veja nas tabelas abaixo as vantagens da inteligência emocional na matemática e quais estratégias devem ser desenvolvidas; como também as habilidades socioemocionais e seus benefícios.

Tabela 01

Vantagens da inteligência emocional na matemáticaEstratégias para desenvolver a inteligência emocional
Aumento da resiliência diante de desafios matemáticosPromover a reflexão sobre as emoções e os pensamentos
Melhora da capacidade de concentração e focoIncentivar a autorregulação emocional
Estímulo à busca por soluções criativasCriar um ambiente seguro e acolhedor

Tabela 02                                                                                            

Habilidades socioemocionaisBenefícios na aprendizagem da matemática
EmpatiaPromove um ambiente colaborativo e ajuda os alunos a apoiarem uns aos outros.
ColaboraçãoDesenvolve habilidades de trabalho em equipe e aprimora a compreensão dos conceitos matemáticos.
ComunicaçãoEstimula a expressão de ideias e dificuldades, promovendo a compreensão e o respeito mútuo.

Relação entre Educação Matemática, Emoções e Ansiedade Matemática à Luz de Damásio

A contribuição de António Damásio oferece fundamentos teóricos consistentes para compreender os desafios presentes no ensino e na aprendizagem da matemática, especialmente no que se refere à ansiedade matemática. Ao afirmar que os processos de tomada de decisão e de raciocínio estão interligados à regulação biológica e emocional, o autor rompe com a concepção tradicional de que o pensamento lógico opera de forma independente das emoções.

No contexto da educação matemática, essa perspectiva é particularmente relevante, pois o raciocínio matemático situa-se no nível mais complexo das operações cognitivas — o domínio abstrato-simbólico. Entretanto, conforme destaca Damásio, esse nível não funciona isoladamente, mas depende de sistemas emocionais e corporais que orientam o comportamento humano. Assim, emoções negativas associadas à matemática, como medo, insegurança e frustração, podem comprometer significativamente o funcionamento cognitivo necessário para a resolução de problemas.

A ansiedade matemática caracteriza-se como uma reação emocional intensa diante de situações que envolvem números, cálculos ou avaliações matemáticas. Estudos indicam que esse estado emocional ativa respostas fisiológicas de estresse, interferindo diretamente na memória de trabalho, na atenção e no raciocínio lógico — funções cognitivas essenciais para o desempenho matemático. Sob a ótica de Damásio, tais reações não são externas ao pensamento, mas fazem parte do próprio sistema que sustenta o processo decisório e cognitivo.

Quando o estudante associa a matemática a experiências de fracasso, punição ou exposição ao erro, o cérebro passa a registrar essas situações como ameaças. Assim, diante de novos desafios matemáticos, o sistema emocional é ativado antes mesmo do raciocínio lógico, desencadeando bloqueios cognitivos que dificultam a aprendizagem. Esse fenômeno explica por que muitos alunos, mesmo dominando conteúdos básicos, apresentam baixo desempenho quando submetidos a avaliações ou situações de resolução de problemas.

Nesse sentido, Damásio contribui para compreender que a dificuldade em matemática nem sempre está relacionada à incapacidade cognitiva, mas à interferência emocional nos processos mentais superiores. O medo de errar, a baixa autoestima acadêmica e a antecipação do fracasso afetam diretamente o acesso às funções simbólicas necessárias ao pensamento matemático.

Dessa forma, o ensino da matemática precisa considerar não apenas os aspectos conceituais e procedimentais, mas também as dimensões emocionais envolvidas na aprendizagem. Ambientes pedagógicos seguros, metodologias lúdicas, uso de jogos, feedback positivo e valorização do erro como parte do processo contribuem para reduzir a ativação emocional negativa e favorecem o funcionamento integrado entre emoção e razão.

À luz de Damásio, promover a aprendizagem matemática implica compreender que pensar matematicamente é também sentir, e que o equilíbrio emocional é condição indispensável para o desenvolvimento do raciocínio lógico. Quando emoções positivas como confiança, pertencimento e motivação são estimuladas, ocorre uma ativação mais eficiente das redes neurais responsáveis pelo pensamento abstrato, ampliando as possibilidades de aprendizagem.

Portanto, a relação entre educação matemática e emoção não é acessória, mas estrutural. A ansiedade matemática revela-se como um fenômeno neurocognitivo e emocional, cuja superação exige práticas pedagógicas que integrem razão, emoção e experiência social. Assim, o ensino da matemática, fundamentado em uma abordagem humanizada e emocionalmente consciente, torna-se um caminho essencial para promover aprendizagens significativas e duradouras.

matemática e autoestima

Autoestima e Aprendizagem: Impactos Emocionais no Desempenho Escolar

As pesquisas desenvolvidas nas décadas de 1970 e 1980 evidenciaram que os fatores emocionais exercem influência significativa sobre o processo de aprendizagem, especialmente no desempenho escolar. Estudos conduzidos por autores como Patterson, Starr e Branden destacaram a autoestima como um elemento central na forma como o estudante se percebe frente às demandas acadêmicas. Nesse contexto, a autoestima passou a ser compreendida não apenas como um traço de personalidade, mas como uma variável psicológica diretamente relacionada ao sucesso ou ao fracasso escolar.

Patterson (1973) apontou que alunos com baixa autoestima tendem a apresentar maior insegurança diante das tarefas escolares, demonstrando medo do erro, evasão de desafios e baixa persistência frente às dificuldades. Esses estudantes frequentemente desenvolvem comportamentos de evitação, reduzindo sua participação em sala de aula e comprometendo o processo de aprendizagem. Assim, o fracasso escolar deixa de ser apenas resultado de dificuldades cognitivas, passando a refletir também fatores emocionais e relacionais.

De forma complementar, Starr (1980) destacou que experiências escolares repetidas de insucesso contribuem para a construção de uma autoimagem negativa do estudante. Quando o aluno passa a se perceber como incapaz de aprender, cria-se um ciclo prejudicial no qual a baixa autoestima interfere na motivação, na atenção e no envolvimento com as atividades acadêmicas. Esse processo tende a reforçar o fracasso escolar, consolidando crenças limitantes que impactam o rendimento e o desenvolvimento global do aprendiz.

Branden (1983), por sua vez, enfatizou que a autoestima saudável é um dos principais preditores do desempenho escolar, pois está associada à autoconfiança, ao senso de competência e à disposição para aprender. Segundo o autor, estudantes que acreditam em sua própria capacidade demonstram maior iniciativa, enfrentam desafios com mais segurança e apresentam melhores condições emocionais para lidar com erros e frustrações.

Dessa forma, os estudos dessas décadas contribuíram para ampliar a compreensão de que o sucesso escolar depende da articulação entre aspectos cognitivos e emocionais, ressaltando a importância de práticas pedagógicas que promovam a valorização do sujeito, o fortalecimento da autoestima e o desenvolvimento integral do estudante.

Autoestima é a forma como o indivíduo percebe, avalia e valoriza a si mesmo. Refere-se ao conjunto de crenças, sentimentos e julgamentos que a pessoa constrói sobre sua própria capacidade, valor pessoal e competência para enfrentar desafios. 

Uma autoestima saudável favorece a autoconfiança, a motivação, o equilíbrio emocional e a disposição para aprender, enquanto a baixa autoestima pode gerar insegurança, medo do erro, desmotivação e dificuldades no desempenho escolar e social.

Segundo a abordagem proposta por Nathaniel Branden, a autoestima é sustentada por quatro pilares fundamentais, que orientam o desenvolvimento emocional e pessoal do indivíduo:

  1. Autoconfiança – crença na própria capacidade de pensar, aprender, decidir e resolver problemas, reconhecendo que é possível enfrentar desafios e lidar com erros.

  2. Autoaceitação – capacidade de reconhecer e aceitar a si mesmo como é, incluindo qualidades, limites, emoções e experiências, sem negação ou autodepreciação.

  3. Autorresponsabilidade – compreensão de que cada pessoa é responsável por suas escolhas, atitudes e comportamentos, assumindo papel ativo em sua própria vida e aprendizagem.

  4. Autovalorização – sentimento de merecimento, respeito próprio e dignidade, que permite ao indivíduo reconhecer seu valor independentemente de comparações externas.

Esses pilares são essenciais para o desenvolvimento emocional e cognitivo, especialmente no contexto educacional, pois influenciam diretamente a motivação, a persistência, a aprendizagem e o desempenho escolar.

Glauser (1984) define autoestima como “os sentimento gerais de um indivíduo quanto ao valor pessoal, utilidade e grau de gosto por si mesmo” (p. 117). 

Segundo Glauser (1984), a autoestima refere-se à avaliação afetiva que o indivíduo faz de si próprio. Ao afirmar que ela envolve os “sentimentos gerais quanto ao valor pessoal, utilidade e grau de gosto por si mesmo”, o autor destaca três dimensões centrais:

  • Valor pessoal: diz respeito ao quanto a pessoa acredita que é importante, digna de respeito e reconhecimento.

  • Utilidade: relaciona-se à percepção de ser capaz, competente e útil nos diferentes contextos da vida, como na escola, na família e na sociedade.

  • Grau de gosto por si mesmo: envolve o nível de aceitação, apreço e satisfação que o indivíduo sente em relação à própria identidade.

Assim, para Glauser, a autoestima não se limita apenas à autoconfiança ou ao desempenho, mas constitui um sentimento global de autovalorização, construído a partir das experiências vividas, das relações sociais e das interpretações que o sujeito faz sobre si.

No contexto educacional, essa concepção ajuda a compreender por que alunos que não se percebem capazes ou valorizados tendem a apresentar insegurança, medo do erro e dificuldades de aprendizagem, mesmo quando possuem habilidades cognitivas adequadas.

matemática e emoções

 

Importância do Córtex Pré-frontal para a Aprendizagem

O córtex pré-frontal, especialmente a região ventromediana localizada na porção inferior e central do lobo frontal, desempenha papel fundamental nos processos de aprendizagem. Essa área cerebral está diretamente relacionada à tomada de decisões, ao controle emocional, à autorregulação do comportamento e à adaptação social. Estudos em neurociência indicam que o adequado funcionamento dessa região é essencial para que o indivíduo consiga planejar ações, avaliar consequências, manter o foco e lidar emocionalmente com desafios cognitivos, aspectos indispensáveis ao processo educacional.

Embora diferentes áreas do cérebro atuem de forma integrada, as funções executivas coordenadas pelo córtex pré-frontal são particularmente relevantes para a aprendizagem matemática. Habilidades como atenção sustentada, memória de trabalho, concentração, flexibilidade cognitiva e controle inibitório são continuamente acionadas durante a resolução de problemas, o raciocínio lógico e o pensamento abstrato. Quando essas funções estão preservadas, o estudante consegue organizar informações, realizar cálculos e transitar entre diferentes estratégias de resolução.

Além disso, fatores emocionais exercem influência direta sobre o desempenho matemático. Segundo Goleman (1995), emoções intensas como medo e ansiedade podem comprometer o funcionamento do córtex pré-frontal, reduzindo a clareza do raciocínio e a eficiência da memória operacional. Esse fenômeno é particularmente relevante na matemática, disciplina frequentemente associada a sentimentos de insegurança e fracasso escolar. Nessas condições, mesmo estudantes com conhecimentos prévios adequados podem apresentar baixo rendimento devido à interferência emocional no processamento cognitivo.

Entretanto, alterações no funcionamento do córtex pré-frontal podem comprometer a regulação emocional, mesmo quando outras capacidades cognitivas permanecem intactas. Nessas situações, o sujeito pode demonstrar domínio conceitual da matemática, mas apresentar dificuldades em lidar com frustrações, impulsividade, insegurança ou ansiedade diante das tarefas. Esse entendimento reforça que emoção e cognição não atuam de forma independente, sendo o equilíbrio entre ambas determinante para o desempenho matemático e para a construção de aprendizagens significativas.

Conclusão

Nesta seção, resumimos as ideias do artigo e finalizamos com o tema sobre como o córtex pré-frontal é importante para a aprendizagem. Falamos também sobre como conectar matemática com emoções para um melhor aprendizado. E abordamos como a educação emocional beneficia a educação matemática.

Vimos que educar as emoções ajuda os alunos a se sentirem bem e confiantes em matemática. Mostramos que a inteligência emocional é chave na resolução de desafios matemáticos. E como a autoestima pode influenciar o jeito de aprender deles. Além disso, falamos sobre o efeito positivo da educação socioemocional na matemática.

Convidamos todos a ver mais sobre esses temas na escola. É possível unir matemática e emoções para um ensino útil e prazeroso.

FAQ

Como a conexão entre matemática e emoções pode resultar em um ensino mais eficaz?

A conexão entre matemática e emoções pode tornar o ensino mais eficaz porque as emoções influenciam diretamente os processos cognitivos envolvidos na aprendizagem, como atenção, memória, motivação e tomada de decisão.

Qual é a importância da educação emocional no ensino de matemática?

Educação emocional é essencial para ensinar matemática. Ensina habilidades como controlar emoções e ter empatia. Estas ajudam alunos a enfrentar desafios da matemática. Essa educação faz o ambiente de estudo ser acolhedor. Assim, alunos se sentem seguros para falar suas dúvidas.

Como a inteligência emocional pode auxiliar os alunos na resolução de problemas matemáticos?

A inteligência emocional ajuda muito no estudo da matemática. Ela ensina a gerenciar emoções. Isso é útil na hora de resolver problemas, mantendo a calma.

Além disso, ajuda a ser persistente. Isso é crucial para vencer obstáculos e se sair bem na matemática.

Como a autoestima pode impactar o aprendizado matemático?

A autoestima é muito importante para estudar matemática. Alunos confiantes aprendem mais. Eles se esforçam mais e têm mais sucesso. A falta de autoestima leva ao desinteresse. Isso pode fazer o aluno achar que não é bom em matemática. O ambiente de aprendizado deve estimular a confiança do aluno.

Como a aprendizagem socioemocional pode contribuir para a melhoria do desempenho dos alunos na matemática?

Aprendizagem socioemocional melhora muito a matemática. Ajuda nos relacionamentos e no trabalho em equipe. E isso é bom, pois compartilhar ideias ajuda a entender e a resolver problemas matemáticos. Ela também fortalece a autoestima e a motivação. E isso é chave para aprender matemática bem.

Como promover o bem-estar e a motivação na sala de aula de matemática?

Mantenha um ambiente positivo na sala de aula de matemática. Use atividades práticas e desafios reais. Assim, os alunos veem a matemática de outro jeito, aplicada em situações do dia a dia. Relações boas entre todos e apoio emocional são fundamentais. Valorize o esforço dos alunos. Isso mostra que todos estão aprendendo e crescendo juntos.

Como equilibrar a emoção e a razão no ensino de matemática?

O equilíbrio entre emoção e razão faz a matemática ser aprendida de verdade. A emoção traz motivação. A razão traz a lógica necessária. É importante estimular a criatividade junto com o pensamento lógico. Assim, os alunos aprendem a usar a matemática de várias formas.

Como utilizar os conceitos matemáticos para desenvolver habilidades emocionais?

Aprender matemática é bom para as emoções. Atividades desafiadoras ensinam a não desistir facilmente. Isso melhora a resiliência. É a chance de aprender sobre si mesmo e sobre emoções. Isso torna o aprendizado mais profundo e verdadeiro.

Como oferecer feedback positivo na aprendizagem matemática?

Feedback positivo é essencial para motivar na matemática. Elogie o esforço e o progresso de cada um. O feedback deve ser sobre todo o processo de aprendizado. Incentive com palavras boas, mostrando que cada passo é importante.

 

Referências Bibliográficas:

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https://revistapsicopedagogia.com.br/revista/article/view/391/412

BORBA, Marcelo de Carvalho; ARAÚJO, Jussara de Loiola. Pesquisa qualitativa em educação matemática. Belo Horizonte: Autêntica, 2010.

DAMÁSIO, Antonio R. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

FIORENTINI, Dario. Educação matemática: fundamentos teóricos e metodológicos. Campinas: Autores Associados, 2006.

 FONSECA V. Dificuldades de aprendizagem: abordagem neuropsicopedagógica. 5ª ed. Rio de Janeiro: Wak; 2016.   

GOLEMAN, Daniel. Inteligência emocional: a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.

MOYSÉS, Lucia. A auto-estima se constrói passo a passo. Campinas. São Paulo: Papirus, 2001.

VYGOTSKY, Lev Semionovich. A formação social da mente. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

WALLON, Henri. A evolução psicológica da criança. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

Auxiliadora Lemos
Auxiliadora Lemos

Sou Auxiliadora Lemos. Professora e Psicopedagoga Clínica com mais de 18 anos de experiência na área. Esse espaço é dedicado a assuntos da Psicopedagogia, para guiar estudantes, recém-formados e profissionais que estão começando na área. Meu objetivo é oferecer suporte, compartilhar conhecimentos, dar dicas de recursos e facilitar a transição acadêmica à prática psicopedagógica. Vamos explorar juntos o fascinante universo do desenvolvimento humano e da aprendizagem!

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